quarta-feira, 18 de junho de 2008

A IDADE DOS FÍSICOS

Idade e motivação dos gênios

Acabo de ser aprovado no vestibular de Física, eu que voltei aos estudos há apenas seis meses. E, por ser mais velho que meus colegas, tenho medo de ter passado do ponto. Esse o motivo que me levou a pesquisar sobre a idade produtiva de Newton, Einstein, Maxwell, Bohr, Heisenberg, Gödel e Schrödinger.

Isaac Newton

Constatei o que não queria: a precocidade dos gênios. Os principais trabalhos de Isaac Newton foram concluídos antes dos 25 anos, uma boa parte no tempo em que ficou isolado em Woolsthorpe, ao abrigo da peste que assolou a Inglaterra em 1665 e obrigou ao fechamento da Universidade de Cambridge; Albert Einstein apresentou, em 1905, suas teorias sobre a natureza dual da luz, efeito fotoelétrico, movimento browniano e relatividade especial, quando tinha 26 anos; James Clerk Maxwell, cujas equações uniram a eletricidade ao magnetismo e à ótica, foi considerado gênio aos 24 anos; Werner Heisenberg estabeleceu o princípio da incerteza com 26 anos; Niels Bohr ganhou a medalha de ouro da Academia de Ciências da Dinamarca aos 22 anos, por seus trabalhos sobre a tensão superficial da água; Kurt Gödel abalou os alicerces da Matemática quando tinha apenas 25 anos.

Necessidade financeira

Mileva e Einstein

Muito simples, pensei, com a minha mania de induções e generalizações.
Entre 20 e 30 anos situa-se a idade do casamento, e surge a necessidade de conseguir o sustento da família. Não resta ao gênio senão fazer o que sabe, que é pôr em prática a sua genialidade. Einstein, por exemplo, casou-se em 1903 com a sérvia Mileva Maric, pouco antes de impor-se ao mundo, e o conjunto de façanhas de 1905 foi necessário para conseguir o dinheiro do aluguel, sendo certo, entretanto, que o Prêmio Nobel de Einstein só viria em 1921, no valor de 32.250 dólares da época.
Bem, se o negócio for movido a necessidade, estou do lado bom, que é o lado de dentro...

Uma coisa ou outra

Examinei depois o caso de Erwin Schrödinger, descobridor de que o comportamento do elétron pode ser explicado por uma equação de onda, que o situa em diferentes posições no espaço. Ao mesmo tempo! Muito complicado e, não obstante, uma vitória da inteligência humana.
Pois bem, Schrödinger formulou essa teoria em 1926, quando tinha 39 anos, e esse fato pode ser um argumento a meu favor, que só serei físico aos 35 anos. O bravo Schrödinger elaborou seu trabalho quando passava uma temporada com uma amante misteriosa nos Alpes suíços, a qual ficou conhecida nos meios científicos como a Dama de Arosa.

Equação de onda
(Manuscrito de Schrödinger)

Erwin Schrödinger

Cabe, portanto, um adendo à minha indução. A consolidação do gênio ocorre entre 25 e 30 anos e resulta de uma necessidade financeira, que era essa a situação de Einstein e Gödel; uma forma alternativa de consolidação de genialidade também pode ter lugar, em qualquer idade, se o gênio estiver se
afirmando perante a amada, como na situação de Shrödinger nos Alpes, o qual, aliás, nunca teve nenhum problema financeiro.
Continuo dentro. Falta só a Dama de Arosa...

Sou candidato ao Prêmio Nobel?

Um amigo me perguntou se tenho a pretensão de ser um Bohr, um Einstein ou, considerando a minha idade, um Schrödinger, pois estranhou essa pesquisa de idades e amantes.

- Acho que você está querendo ganhar um Prêmio Nobel!

Informei-lhe que meu desejo é ser um bom professor de Física. Quanto ao Prêmio Nobel, dou a mesma resposta de Dona Edith, a nonagenária da Antero de Quental, quando lhe perguntavam se achava possível receber uma proposta de casamento:

- Por que não? A gente nunca sabe...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

CECÍLIA MEIRELES E A FÍSICA QUÂNTICA

Complementaridade

Desde Isaac Newton (1642-1727), defendia-se que a luz era formada de partículas, bastando ver que a luz ultra-violeta, de alta energia, ao incidir sobre um metal condutor de eletricidade, desloca elétrons e produz o efeito fotoelétrico - só uma particula (luz) pode se chocar com outra (elétron) para produzir o movimento desta última.
Esse modelo era combatido por Christiaan Huygens (1629-1695), que defendia a teoria ondulatória, pela qual a luz seria formada de ondas, tanto que, incidindo sobre um anteparo com duas fendas, um raio de luz passa simultaneamente por ambas as fendas, provocando efeitos de claro-escuro numa tela receptora colocada atrás do anteparo -uma partícula, com efeito, não passaria pelas duas fendas
.
Dois modelos distintos, incompatíveis e mutuamente excludentes, alicerçados em sólidas razões científicas, como pode? Qual seria o modelo correto?

Em 1905, Albert Einstein (1879-1955) resolveu o impasse, ao postular que a luz pode assumir os dois modelos de comportamento, o de Newton e o de Huyghens, apresentando-se ora como partícula, ora como onda. Dezoito anos depois, o francês Louis de Broglie (1892-1987) defendeu que o caráter dual onda-partícula não era uma exclusividade da luz, sendo extensível às demais partículas subatômicas, o que foi posteriormente demonstrado por experiências científicas de alta precisão. Todas as partículas subatômicas, incluindo prótons, elétrons e nêutrons, são ora partículas, ora ondas!

Louis de Broglie

E não é só. O dinamarquês Niels Bohr (1885-1962) enunciou, em 1928, o princípio da complementaridade, pelo qual quem vê onda vê somente onda e quem vê partícula vê somente partícula. Só um dos modelos é percebido pelo observador: na experiência do efeito fotoelétrico, a luz se comporta como partícula, sem mostrar seu caráter igualmente ondulatório; na experiência da dupla-fenda, a luz tem o caráter de onda, escondendo a alternativa corpuscular.
Conclusão: a natureza, ambígua e escorregadia, tem dois modelos, mas só mostra um de cada vez!

Niels Bohr

Ou isto ou aquilo

É então que entra em cena o poema "Ou isto ou aquilo", de Cecília Meireles, publicado em 1964:


Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar
ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinque, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Cecília Meireles (1901- 1964) sabia de complementaridade, tanto quanto Einstein, de Broglie e Niels Bohr, ela, que a esse fim, nunca precisou ir a nenhum laboratório, cujo, no seu caso, guardava-o na própria alma.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

UMA TÉCNICA DE ALHEAMENTO

EUTANÁSIA

Certo dia, a uma pergunta de Português, em vez de “antonomásia”, respondi “eutanásia”, e esse equívoco mudou para sempre a minha vida. Não é normal, nem justo, que fique impune um pecado desta magnitude. Recebi, porém, uma pena desproporcional:
deram-me o apelido de "Eutanásia", e passei a ser enxovalhado pelos colegas, pelas meninas e até pelos professores.

O bobo da corte
- Como vai, Eutanásia?

- Bom dia, Eutanásia!

- Vamos jogar bola, Eutanásia?


- Alhos com bugalhos, Malásia com Dona Eufrásia, viva o Eutanásia!

Eutanásia, o bobo da corte, eu, exatamente eu! Esquecia-me de acrescentar que tenho horror ao vexame. Passados quase vinte anos, ainda carrego dentro do peito dolorido o ônus desse passado insuportável. Acumulei pouco amor, nenhuma fé, muita renúncia e abjeções dolorosas, certo de ser um culpado definitivo, nem importa de quê. Sou culpado, absoluta e inarredavelmente culpado, e a todos eximo de me perdoar ou absolver.


Alheamento

O recurso era ignorar as provocações, e, isolado na carteira da última fila, sentia-me humilhado, só e desnecessário. Não prestava nenhuma atenção às aulas e quase não interagia com as outras pessoas, que já não me interessavam, muito menos seus projetos, êxitos e fracassos. Não ria de anedota, contada fosse por colega ou professor, e cada vez menos ia ao pátio na hora do recreio. Aos poucos fui desenvolvendo uma técnica de alheamento que me permite voar para longe das minhas circunstâncias, sendo esta a blindagem contra o que não preciso ver e, principalmente, contra o que não quero ouvir. Eles falam aqui, e eu estou lá, longe, muito longe, tentando entender o princípio da relatividade, de Galileu, ou aprendendo com Schopenhauer que a gente vive para... continuar vivendo.

Permaneço desde então dedicado aos livros, estes, sim, amigos leais e incapazes de ignomínias ou provocações. Leio e dialogo com o que li, pois eu, apenas eu, sou a medida de mim mesmo.
Meu interesse maior é pelos poetas, seres especiais, iluminados, que prestam relevantes serviços no domínio dos sentimentos e dos sonhos. São os missionários da alma, a cozinha especial de que nos fala Fernando Pessoa, a nos servir, quentes e bem passados, os sentimentos universais dos seres humanos:


Quem, de fato, não se viu reproduzido nas Confidências de um Itabirano, de Drummond?

Quem não teve os sonhos de Pasárgada, de Manuel Bandeira?

Quem não admitiu, alguma vez, errei, fui homem, como Fagundes Varela, ou não teve, como João Cabral, uma educação pela pedra, por lições, para aprender da pedra, freqüentá-la?

João Cabral de Melo Neto

Não me limitei aos poetas, todavia. A esmo e sem nenhum planejamento, desvairadamente li
peças, folhetos e ensaios, Dostoiévski e Marcel Proust, as crônicas de Graciliano Ramos e de Rubem Braga, os discursos de Rui Barbosa, a vida de Abraham Lincoln, inumeráveis coisas assim, mas também matemática, cosmologia e, principalmente, livros de física ou sobre leis físicas, fascinado que sou pelo espetáculo soberano da Natureza.

- Eutanásia, como assim?

- Por antonomásia.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

DE THALES PARA ELISA (DEVER DE CASA)

Vinte Dicas Sociais

(1) Evite fazer barulho, sobretudo à noite, para não incomodar o vizinho do apartamento de baixo. Se necessário, faça sexo no chão.


(2) Tente impedir seu cachorro de latir, pois o vizinho pode se aborrecer e latir também.

(3) Não fume sem pedir permissão e, se lhe derem, ignore-a completamente, que o fumo provoca câncer no pulmão, na língua, nos lábios, na garganta e no esôfago.

(4) É profunda falta de respeito chegar atrasado a um encontro presidencial, a não ser que o presidente seja você.


(5) Só os bons amigos devolvem livros emprestados, mas é bom ter em mente que bons amigos nunca pedem livros emprestados.


(6) Ajude a mulher quando for tirar o casaco e, igualmente, quando for tirar o resto.

(7) Não interrompa uma pessoa que estiver falando, a não ser em caso de terremoto. Lembre-se, entretanto, que no Brasil são muito raros os terremotos, tanto quanto os pingüins...

(8) Se você for convidado para um jantar, não peça para levar a sua tia, salvo se o convite reconhecer que você tem problemas de orçamento.


(9) Peça desculpas se o seu estômago roncar e, se a causa do ronco for a fome, peça também uma sopa e bolachinhas.


(10) É grosseria imperdoável sair do seu lugar, num restaurante, para conversar com um conhecido em outra mesa. Seja como for, é o único recurso se você esquecer a carteira e precisar do amigo para pagar a conta.

(11) Use os talheres de fora para dentro, mas só quando os pratos forem servidos.

(12) Parta o pão francês com as mãos, pois com os pés é mais difícil.
(13) Se seu namorado convidá-la para comer uma pizza, nunca diga “prefiro uma lagosta”. Se o fizer, não se esqueça de acrescentar: “eu pagarei a conta”.


(14) Trate todas as piscinas como se fossem a sua, sem, entretanto, urinar na água.


(15) Se um convidado chegar com um animal, diga "não" aos dois.


(16) Nos museus nunca toque nas obras de arte, pois as obras de arte nunca tocam em você.


Olympia, de Édouard Manet

(17) O homem deve abrir a porta do táxi para a mulher, sendo certo que ela não conseguirá entrar se a porta estiver fechada.



(18) O homem não deve vestir smoking antes das seis da tarde, mas isso não lhe servirá de desculpa se você for for apanhado, nu, com a secretária.



(19) Não há problemas em aceitar convites para reuniões open house, para jantares potluck, para
encontros de happy hours e para festas de housewarming, mas é sempre bom consultar um bom dictionary, pois o desavisado pode acabar num brunch, bebericando screwdriver ou bloodmary, tendo um kosher como appetizer, tudo ao som de música klezmer.

(20) Quando dois casais saem para jantar, a conta deve ser compartilhada, mas só a conta.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

MEU PROFESSOR DE HISTÓRIA

A prova final

- História é tudo, menos as nossas miudezas.

- Menos as miudezas

Tibério Gardênio ainda comentou sobre Pero Vaz de Caminha, o escrivão que se aproveitou da carta ao rei Dom Manuel para pedir pela regeneração do genro marginal, preso na Ilha de São Tomé. Nunca se deve esquecer, portanto, que o regime do pistolão foi instituído na certidão de nascimento do Brasil.

- Mas o Pero tinha lá o seu estilo, o oportunista, o velhaco!

Uma definição generalizante de História, que tanto podia abranger tudo quanto não abranger coisa nenhuma, e a execração impiedosa do escrivão do Descobrimento. Mais não houve, só miudezas, pois Getúlio Vargas foi sua obsessão e assunto exclusivo pelo resto do semestre. Lembro-me de seus inesgotáveis comentários, que denotavam uma insistente, minuciosa e quase visceral proximidade com o Presidente:



- Quando amarrava seu cavalo no Obelisco, Getúlio Vargas voltou-se para mim e disse, triunfante: "Tibério, esta é a revolução da vitória!".


- Getúlio presenteou-me com este relógio de ouro, que trago comigo para contemplação e gáudio de todos vocês.

- Certa feita, no Catete, perguntei-lhe: qual a sua filosofia, meu Presidente? Mestre, respondeu-me o grande líder, minha filosofia é a filosofia do momento.

A História ficou portanto sem nenhum currículo, e Getúlio Vargas não era ponto do exame. Os alunos teriam de comparecer à prova sabendo apenas que História é tudo, menos as miudezas da humanidade, e que o nome do genro de Pero de Caminha era Jorge de Osório. Segundo a mãe do Pedrinho, que era advogada e professora de piano, o pedido foi atendido em 1501 pelo rei Dom Manuel I, dito o Venturoso, quando soube da morte do escrivão em conseqüência de um ataque dos árabes à esquadra de Pedro Álvares Cabral.

- Mas isso ele não mencionou, nem de leve.

- Quem sabe então o nome do palácio onde Getúlio se matou ou o do monumento no qual amarrou o cavalo?


Tibério Gardênio não perguntou nada disso. Ele tinha um método singular para aplicação de provas e, a cada questão, acrescentava comentários irreverentes, mas esclarecedores.


- Onde Napoleão foi derrotado? Em Waterloo, seus idiotas!

- Em que cidade nasceu Cristóvão Colombo? Muita gente importante, aqui de Barro Verde, acha que Gênova, a grande Gênova, é capital de Minas Gerais, ora vejam, Gênova, a grande Gênova, ser considerada a capital de Minas Gerais!

Gênova

- Mencione alguns diplomatas importantes da História do Brasil. Pitecantropos de todo o mundo, uni-vos e citai, para uma resposta menos irresponsável, os nomes ilustres de Alexandre de Gusmão, Rio Branco, Rui Barbosa, Oswaldo Aranha...

Foi então que não me contive e exclamei: Caldeira Brant!


- Quem disse Caldeira Brant?, perguntou o professor, surpreso e aparentemente indignado.

Não tive saída, levantei a mão e, esperando pelo pior, confessei: fui eu...


- Pois me entregue sua prova e pode retirar-se da sala.


- Estou perdido...

Sofri durante duas semanas a dolorosa angústia dos que estão na iminência de receber uma dura punição. Eu podia ser reprovado e, pior ainda, expulso do colégio. Felizmente, porém, este foi um receio sem fundamento nem concretude, pois o professor me contemplou com a única nota dez da prova de História.


- Valeu, Tibério Gardênio! História é tudo, menos as nossas miudezas!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

TUDO É POSSÍVEL

Pensamentos de um vitorioso acidental

Tudo se passa, quem diria, como se matéria atraísse matéria, na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias. Tenho todo o direito de não acreditar na gravidade, e até de ser contra ela, mas não consigo viver sem seus efeitos.

Com seis anos, Mozart já compunha extensas sinfonias, absolutamente geniais. Com seis anos, que fazia eu com seis anos, meu Deus?

Mozart

Na sua turma, de 58 alunos, Napoleão Bonaparte classificou-se em quadragésimo-segundo lugar. Melhorou muito com Josefina Bonaparte, para a qual chegou em segundo lugar, logo após o Visconde de Beauharnais.

Matusalém, filho de Enoque e pai de Lameque, viveu 969 anos, de 12 meses, de 30 dias, de 24 horas. Está na Bíblia.

Às vezes um grito pode valer mais do que uma tese. Sabe-o muito bem quem viu um filme do Tarzan, com Johnny Weissmuller, ou, melhor ainda, o “Moderato Cantabile”, com Jeanne Moreau.

Leucipo de Abdera estabeleceu a noção do átomo 400 anos antes do nascimento de Cristo, num exercício de imaginação para suprir sua carência de aceleradores de partículas. Ele estava certo, concluiu, ao microscópio, em 1911, o físico Ernest Rutherford.

Um pássaro marinho, a cagarra, que nunca tinha saído da ilha de Skockholm, na Grã-Bretanha, foi solto a 4.900 km de distância, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Voando em linha reta, e sem errar o caminho uma única vez, em 13 dias já estava de volta ao seu habitat. E eu, pobre de mim, sempre perdido pelos caminhos da vida!

Os sapatos que Judy Garland usou no “Mágico de Oz”, oferecidos em leilão, foram arrematados por 165 mil dólares. Uma mixaria, e isso pode explicar por que Liza Minnelli se viu forçada a trabalhar no Cabaré.
O marechal alemão Friedrich von Paulus, que se entregou aos russos em 1943, só foi libertado dez anos depois; pior fez o japonês Massumi Sassahara, que reapareceu em 1996, cansado de esconder-se da Segunda Guerra Mundial, cujo final foi celebrado em maio de 1945. Abaixo as guerras mundiais, os marechais alemães e os japoneses desinformados!

Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, qualquer que seja o idioma. Tanto que os franceses, desde Lavoisier, vivem repetindo para quem quiser ouvir:

- Tout casse, tout passe, tout se remplace.


A astrologia é uma ciência com a qual, ou sem a qual, o mundo permanece tal e qual.


- Você é medalha de ouro.

E eu, um contumaz e empedernido despossuidor de mulheres, acabo de ser exaltado por uma deusa, que só veio a mim porque errou de cama. Pois ela
, ao se despedir, me disse emocionadamente: “você é medalha de ouro.”

- Medalha de ouro, eu, medalha de ouro, senhoras e senhores!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Meu professor de Inglês

Vaca-rapaz

Não me lembro de nenhum professor especialmente preparado, nem de colegas muito inteligentes. Éramos, de fato, uma assembléia de mediocridades, considerados ambos os lados da mesa. Eu, pobre de mim, sempre gostei de problemas de aritmética, palavras cruzadas e quebra-cabeças, e tinha um desempenho saliente em Inglês, o que não chegava a ser nenhuma façanha, nem podia ser avaliado, pois o professor era daqueles que traduziam “cowboy” por “vaca-rapaz” e “what does he do?” por “que faz ele fazer?”

- Doutor Vacaria, não seria melhor traduzir “cowboy” por “vaqueiro” e “what does he do?” por “o que ele faz?”

"vaca-rapaz"

Como o professor nada respondeu, entendi que havia sido grosseiro e inconveniente. Mais uma vez, sim, mais uma vez. Para minha surpresa, porém, ele voltou ao assunto na aula do dia seguinte, embora de forma indireta e metafórica. Elogiou o padre Eleutério, que sempre se penitenciava dos seus erros, a inteligência de Santo Agostinho, que na fé conheceu a razão e a felicidade, e a humildade de Francisco de Assis, que se dedicou a um ideal de pobreza e por isso recebeu os estigmas das chagas de Cristo.

- À estupidez sempre há de contrapor-se o discernimento, e só os idiotas não mudam. Prevaleçam, pois, a razão e a verdade, mas também a inteligência, para reconhecer os equívocos, e a humildade, para proclamá-los sem nenhum constrangimento. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

A custo consegui entender que Yrves Vacaria de Bastos Viamão estava aceitando a minha sugestão. Desde então “vaca-rapaz” e “o que faz ele fazer?” perderam a vez para “vaqueiro” e “o que ele faz?”, nas aulas de Inglês de Barro Verde. E não era só, pois fui dispensado dos exames finais e aprovado com nota oito, vírgula três.

- The rest is silence.

- The rest is silence.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O BOBO DA CORTE

A capivara
Tutu generoso e fecundo

- Digamos que você venda uma quantidade de ações da Petrobras por 100, para entregar no futuro; depois, a ação caindo, você recompra igual quantidade, por 40, por exemplo; como você vendeu e comprou a mesma posição, não precisa entregar nada. Um jogo, de créditos e débitos, onde não entram ações, que estas não interessam, mas apenas suas cotações. Mas há um troco de 60, entendeu? O qual é tutu generoso e fecundo no bolso da criança!

- Mas as ações da Petrobras vão cair?

- Sem nenhuma dúvida, Yorick, pois sei de fonte limpa que o balanço anual, no fim do mês, virá muito aquém da expectativa do mercado. Balanço ruim, as cotações correrão para baixo, uma tacada de mestre!

Faturando com a queda

Yorick não tinha nenhuma familiaridade com esses torneios vitoriosos da Bolsa de Valores, mas compreendeu a operação. Ouvira falar vagamente de mercado futuro e de gente que ganhou fortunas com esse tipo de especulação e acabou admitindo que aquela era a sua vez. Se tinha uma informação privilegiada, era usá-la para ganhar também.

- Anche io sono un figlio di Dio, pensou ele, assim mesmo, em italiano.

Procurou uma corretora de valores e negociou os maiores lotes que lhe permitiam seus recursos, pois, se tinha de entrar, que fosse de maneira decisiva. Ganhar o dinheiro da sua vida. Reuniu todas as suas disponibilidades, além de recorrer a empréstimos bancários, para fazer a margem, que era a garantia exigida na operação.

Restou-lhe, depois, aguardar, e Yorick foi acompanhando, ansioso, a evolução do mercado pelos jornais. As ações da Petrobras, como previsto, começaram a cair devagarinho, que a informação subreptícia vai se alastrando, insidiosa, de modo que os avisados vão se livrando do papel. Se há muita oferta, os preços desabam, eis uma lei presente em todos os mercados.
So far, so good, pensou Yorick, satisfeito. Quando afinal o balanço fosse publicado e a desvalorização chegasse ao máximo, recompraria os lotes vendidos, auferindo o lucro da sua vida.

Geometria e capivaras

A geometria, que é anterior ao homem, não falha, não falha não, tanto que o quadrado da hipotenusa é uma soma de dois quadrados em todas as situações, antes do Big Bang, na época de Empédocles de Agrigento, nos dias atuais e eternidade adentro. Não há nenhuma hipotenusa, por mais feia, infeliz ou desfavorecida, que não tenha essa propriedade. Por quê? Porque a geometria garantidamente não falha!

- E o resto?

- Bem, o resto é o resto, como a capivara.

Nenhuma garantia

Pois é, o inesperado aconteceu. Uma semana antes do balanço, veio o anúncio precipitado da descoberta na Bacia de Campos, triplicando as reservas nacionais de petróleo. As ações da Petrobras, ao invés de cair, dispararam na Bolsa de São Paulo, tanto quanto em Wall Street e Buenos Aires. Nunca tinha havido uma escalada tão espetacular nas cotações do papel. Ou seja, no caso do Yorick a tacada funcionou ao contrário. Viu-se obrigado a recomprar os lotes comprometidos pelo dobro do crédito gerado na operação, realizando, no frigir dos ovos, um prejuízo de 102,5 por cento, para zerar sua posição. Por isso tinham exigido todas aquelas garantias! Perdeu na empreitada tudo o que possuía e retirou-se para uma cidadezinha do Espírito Santo, onde sobrevive vendendo sanduíches de lingüiça, à porta do estádio de futebol.

Yorick
- Sou Yorick, o bobo da corte.
(fim)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

EM BUSCA DO PETRÓLEO (parte 4/4)

Uma pequena odisséia

Com o passar do tempo, a Legião Estrangeira já não se excitava, nem era movida a grandes esperanças, quando tinha de se deslocar para avaliar novas descobertas, tantas haviam sido as decepções nos testes anteriores. Até que houve a descoberta de Caranguejinho.

- Vamos lá para cumprir tabela, arriscou alguém.

Só que dessa fez foi diferente. Montada a engenhoca da avaliação no poço descobridor, Caranguejinho 1, houve produção de óleo surgente, à razão de 300 barris por dia. O Labra constatou, no decorrer dos cálculos complicados, que a pressão final extrapolada igualava a pressão inicial e que era excelente o índice de produtividade da formação.


- Reservatório infinito!, proclamou,
sob intensa comemoração dos técnicos e operários da sonda.

A coisa tornava-se plural. Com dois campos comerciais de petróleo, Cachoeira Alegre e Caranguejinho, o sertão estava caminhando para se tornar uma província petrolífera...

As baixas


Houve várias baixas, quase ao mesmo tempo, no mês que antecedeu o início da produção comercial. Há explicação para defecções, voluntárias ou forçadas, no exato momento em que as pessoas se tornam prescindíveis, como os andaimes, que se retiram quando a obra se dá por concluída?

Carlinhos Mineiro


Um químico inteligente e generoso, que não confiava na solidez dos bancos e guardava todo o seu dinheiro em almofadas de couro. Um dia as almofadas desapareceram misteriosamente e, com elas, seus 120 mil dólares, amealhados ao longo de 40 meses de trabalho escamado e sofridas privações.

- Quem rouba minha bolsa, rouba lixo, comentou ironicamente o Severo.

Carlinhos chorou diante de todos quando encerrou as buscas pelo dinheiro, entendendo definitivamente que suara por uma liquidez que já não existia. Voltou para Belo Horizonte, onde tornou-se motorista de táxi e faleceu num acidente de trânsito.

Nilberto Boaventura

Nunca pareceu ser uma pessoa normal. Entendia tudo sobre completação de poços, bombeio mecânico e “árvore de natal”, este um arranjo mecânico pelo qual se controlam os poços de produção. Nilberto começou a gritar às três da manhã. Todo o acampamento ouviu estarrecido a ladainha absurda, lancinante, que não deixava ninguém dormir:


- Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá! Viva eu cá na terra sempre triste! Eu sou o quadrado da hipotenusa! Ser ou não ser, eis a questão! Eu sinto em mim o borbulhar do gênio! Eu quero a estrela da manhã! O século que viu Colombo, viu Gutenberg também! Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia assim, de um sol assim! Sou poeta, não troco uma estrofe minha por teu colar de rainha! Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus! Eu sou a poderosa artilharia! O estado sou eu! Eu, eu, eu, eu sou mais eu!

Contido pelos enfermeiros do plantão médico, foi arrastado até o ambulatório. No dia seguinte levaram-no para Recife, de onde não regressou nunca mais.

Joaquim Peruano


Geólogo de desenvolvimento, era o responsável pelo cálculo das reservas de petróleo e definição das locações dos poços. Foi encontrado morto, vítima de cruel emboscada, na estrada de Picos Amarelos. Recebeu uma descarga de seis tiros, à queima-roupa, numa ação típica de pistoleiros profissionais. No sertão do petróleo, o crime foi insistentemente atribuído à vingança de Montezuma.


Antônio Labrador


O homem da avaliação das descobertas, misterioso e atrevido, mais conhecido como Labra. Pediu demissão inesperadamente, para alegria de todos os chefes e tristeza dos subordinados. Repartiu suas economias pelos pobres de Cachoeira Alegre e desapareceu para sempre, como um Dom Sebastião ou um deus Quirino. Deixou uma carta afixada no salão da geologia, dando por encerrada sua contribuição à causa do petróleo. Nela afirmou que se engajara no projeto de Cachoeira Alegre para cumprir uma vontade do pai, outrora um ativista na luta do petróleo. No final, uma mensagem para a Legião Estrangeira:


- Sou a vossa testemunha e me sinto grande porque sois grandes.

Início da produção comercial

Mais de duas centenas de poços, com capacidade total de 22.800 barris de petróleo por dia, foram postos a produzir, a uma ordem solene do presidente da companhia. Estavam presentes o vice-presidente da República, o presidente da Câmara dos Deputados, o Governador e muitos convidados.
Foi assim que o petróleo de Cachoeira Alegre começou sua carreira industrial. Ele se desloca horizontalmente pelos poros da rocha, lá na profundidade, até alcançar o poço e, então, ascende pela coluna de produção, na sua luta contra a gravidade, até chegar à superfície. Carrega consigo a energia de muitos derivados, e isso o coloca na galeria dos produtos mais cobiçados em todos os países do mundo.

Ulisses

O petróleo de Cachoeira Alegre carrega também, e portanto, o testemunho da presença da Legião Estrangeira, que ali aportou e viveu essa odisseiazinha sem registro, perdida nas muitas esquinas do tempo. A cada caso de Lampeão corresponde uma vingança de Montezuma, uma anedota do crioulo Florisval ou a desventura de um jovem qualquer, como o que enlouqueceu em pleno sertão, o que foi demitido covardemente, o que morreu no acidente com o jipe e o que economizou almofadas de esperanças e retornou para Minas Gerais com as mãos absolutamente vazias. Tudo isso ficou para trás, sem sequer deixar um nome e dormindo profundamente, como nas poesias de Manuel Bandeira.
Para frente, entretanto, o assunto é muito outro: mandacarus convivendo com cavalos de pau, barris de petróleo a mancheias nos tanques, muito dinheiro e progresso, porque a natureza tem horror ao vácuo.

Sertão e petróleo lado a lado, por 40 anos. Pelo menos.

(fim)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A BUSCA DO PETRÓLEO (parte 3/4)

Desenvolvimento

O lugarejo não passava de uma longa e acidentada rua de choças de barro. Sua população, pobre e doente, tinha, se tanto, uma vaga esperança na chegada da Grande Hora, a da fartura - ecos e rumores dos tempos de um certo Antônio Conselheiro, puxando a monarquia branca, ou emanados do Beatinho Zé Lourenço, que puxou a vaca preta nas suas
caminhadas errantes pelas bandas do Ceará. Histórias mal-ajambradas, que se confundiam com as lendas e mistérios do sertão.




Zé Lourenço
(Crato, 1937)


Antônio Conselheiro
(Canudos, 1897)

Muita coisa, todavia, iria se alterar em Cachoeira Alegre. Como as atividades do petróleo não podem dormir, nem guardar domingos e feriados, e seguem ininterruptas pelas 24 horas do dia, era necessário contar com quatro turmas por sonda que estivesse em operação. Três delas revezavam-se a cada oito horas, enquanto a quarta folgava. A qualquer momento, para cada homem nas sondas havia três homens honestamente no ócio. Destes, uns poucos deixavam-se ficar no acampamento, guardando repouso, estudando ou jogando cartas, mas a maioria andava pelos bares e pelo cabaré de Cachoeira Alegre.

Plataformistas, na sonda

O gigante oligofrênico fazia correr dinheiro abundante, antes mesmo de fluir a riqueza da terra. O mais notório dos comerciantes era o Corcundinha, que roubava no peso e na qualidade, cobrando um quilo de filé por oitocentos gramas de carne de pescoço, sem falar nas bebidas falsificadas e na água de torneira, que vendia como mineral. Ficou rico.
Das prostitutas, Mariazinha Bangu era nome citado em todas as sondas da região. Tinha pele morena, ar meio tímido, cara bonita e corpo redondo e delicado. Olhos sestrosos, que convidavam, e um largo balançar de quadris, retardativo, mas excitante. De vasta quilometragem, foi mulher de quase todos os petroleiros do sertão. Até que um dia o Florisval, que de laboré chegou a torrista titular, avisou, berrando no acampamento, que Mariazinha não seria nunca mais mulher de ninguém.

- Vou me casar com ela e espeto com peixeira enferrujada o primeiro que me chamar de corno.

Era uma lei, e essa lei pegou. Houve quem falasse mal dos petroleiros, da polícia, dos políticos, dos usineiros e até da Igreja. Houve, naquela época de guerra fria, de “progressistas” e “reacionários”, quem praguejasse contra russos e americanos ou acusasse de ladrão o poderoso Corcundinha.

- Que se saiba, porém, não houve em todo aquele sertão quem tivesse chamado de corno o crioulo Florisval.


Uma demissão


Tudo se foi cumprindo como programado. Ao cabo de quatro anos, os trabalhos adiantados mostravam um campo de petróleo quase pronto. Das 26 estações coletoras, 21 estavam concluídas. Mais de 200 poços tinham sido perfurados, completados e testados, prontos que estavam para produzir.
Cachoeira Alegre era, nesse ponto, um tema de interesse nacional. Foi nessa ocasião que um jornalista publicou nos “Diários Associados” e na “Folha de São Paulo” uma série de reportagens intituladas “Cachoeira Alegre, urgente!”, que mencionavam conflitos e discórdias entre os homens do petróleo, os usineiros e políticos da região de Cachoeira Alegre.

A matéria gerou muita confusão, envolvendo, de um lado, os petroleiros e, de outro, os prefeitos de três cidades, além de autoridades estaduais e ministros, inconformados com as inverdades e os exageros daquelas notícias. Sobreveio uma inesperada indignação oficial, pois o governo federal não queria mal-entendidos e distúrbios que prejudicassem sua base política no Congresso. Antônio Sepúlveda, acusado de informante do jornalista, foi demitido por ordem expressa do Rio de Janeiro, sob protestos inconformados da Legião Estrangeira.
Sepúlveda não esboçou nenhuma reclamação, retirou-se para São Paulo, onde se dedicou à construção civil e criou uma exitosa companhia de engenharia. É certo, porém, que abrigou para sempre uma mágoa profunda e dolorosa.


- O jornalista não teve a generosidade de dizer aos interessados, nem aos que me puniram, que nunca o vi em minha vida, nem tive nada a ver com aquelas reportagens.


A primeira estação

A primeira estação coletora de Cachoeira Alegre destinava-se a recolher, tratar e armazenar a produção de petróleo de dez poços situados nas proximidades do acampamento. No dia da inauguração, presente toda a Legião Estrangeira, promoveu-se uma pequena cerimônia, e alguns poços foram colocados em produção por dez minutos. Houve o discurso emocionado do Alfredo Velhinho e a votação que escolheu o nome da estação: Estação Primeira de Mangueira.

Estação Primeira de Mangueira

Uma semana depois, Cachoeira Alegre engalanou-se para receber uma comitiva de três governadores, seis senadores e vários deputados, entre os quais Fabrício Restrepo, que estava acompanhado de sua mulher Helena, para além de inúmeros intelectuais e jornalistas. A Legião Estrangeira interrompeu suas atividades e, de paletó e gravata, deu explicações sobre exploração e produção de petróleo.
Uma comovente cerimônia teve lugar na Estação Primeira de Mangueira: o batismo de petróleo da comitiva visitante. Toledo, o engenheiro-chefe da produção, mergulhava as mãos no petróleo abundante, negro e viscoso, e as oferecia para o cumprimento emocionado dos convidados, organizados numa fila longa e paciente.

Fabrício Restrepo, as mãos sujas de petróleo, tomou a palavra para enaltecer a política nacional de energia e o decisivo apoio das autoridades federais, estaduais e municipais, ele que era orador de idéias panegiricais e longos exórdios. Seus gestos largos faziam espirrar petróleo em todas as direções, enquanto invocava e celebrava os nomes de Edson de Carvalho, Monteiro Lobato, Oscar Cordeiro e Horta Barbosa.

- Viva o general Horta Barbosa!

Sua mulher Helena, rapidinha e de enredo planejado, aproveitou o longo discurso do marido e escamugiu-se pelo mato com o geólogo Joaquim Peruano. Brasil e Peru, com trocadilho, vivados, tanto no palanque como na caatinga, com igual veemência e arrebatamento.
Helena de Pinho Restrepo entrou para o folclore do petróleo, e seu nome correu sonda, substituindo o nome proibido de Mariazinha Bangu.
(conclusão na segunda-feira, 14/4/2008)