segunda-feira, 14 de abril de 2008

EM BUSCA DO PETRÓLEO (parte 4/4)

Uma pequena odisséia

Com o passar do tempo, a Legião Estrangeira já não se excitava, nem era movida a grandes esperanças, quando tinha de se deslocar para avaliar novas descobertas, tantas haviam sido as decepções nos testes anteriores. Até que houve a descoberta de Caranguejinho.

- Vamos lá para cumprir tabela, arriscou alguém.

Só que dessa fez foi diferente. Montada a engenhoca da avaliação no poço descobridor, Caranguejinho 1, houve produção de óleo surgente, à razão de 300 barris por dia. O Labra constatou, no decorrer dos cálculos complicados, que a pressão final extrapolada igualava a pressão inicial e que era excelente o índice de produtividade da formação.


- Reservatório infinito!, proclamou,
sob intensa comemoração dos técnicos e operários da sonda.

A coisa tornava-se plural. Com dois campos comerciais de petróleo, Cachoeira Alegre e Caranguejinho, o sertão estava caminhando para se tornar uma província petrolífera...

As baixas


Houve várias baixas, quase ao mesmo tempo, no mês que antecedeu o início da produção comercial. Há explicação para defecções, voluntárias ou forçadas, no exato momento em que as pessoas se tornam prescindíveis, como os andaimes, que se retiram quando a obra se dá por concluída?

Carlinhos Mineiro


Um químico inteligente e generoso, que não confiava na solidez dos bancos e guardava todo o seu dinheiro em almofadas de couro. Um dia as almofadas desapareceram misteriosamente e, com elas, seus 120 mil dólares, amealhados ao longo de 40 meses de trabalho escamado e sofridas privações.

- Quem rouba minha bolsa, rouba lixo, comentou ironicamente o Severo.

Carlinhos chorou diante de todos quando encerrou as buscas pelo dinheiro, entendendo definitivamente que suara por uma liquidez que já não existia. Voltou para Belo Horizonte, onde tornou-se motorista de táxi e faleceu num acidente de trânsito.

Nilberto Boaventura

Nunca pareceu ser uma pessoa normal. Entendia tudo sobre completação de poços, bombeio mecânico e “árvore de natal”, este um arranjo mecânico pelo qual se controlam os poços de produção. Nilberto começou a gritar às três da manhã. Todo o acampamento ouviu estarrecido a ladainha absurda, lancinante, que não deixava ninguém dormir:


- Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá! Viva eu cá na terra sempre triste! Eu sou o quadrado da hipotenusa! Ser ou não ser, eis a questão! Eu sinto em mim o borbulhar do gênio! Eu quero a estrela da manhã! O século que viu Colombo, viu Gutenberg também! Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia assim, de um sol assim! Sou poeta, não troco uma estrofe minha por teu colar de rainha! Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus! Eu sou a poderosa artilharia! O estado sou eu! Eu, eu, eu, eu sou mais eu!

Contido pelos enfermeiros do plantão médico, foi arrastado até o ambulatório. No dia seguinte levaram-no para Recife, de onde não regressou nunca mais.

Joaquim Peruano


Geólogo de desenvolvimento, era o responsável pelo cálculo das reservas de petróleo e definição das locações dos poços. Foi encontrado morto, vítima de cruel emboscada, na estrada de Picos Amarelos. Recebeu uma descarga de seis tiros, à queima-roupa, numa ação típica de pistoleiros profissionais. No sertão do petróleo, o crime foi insistentemente atribuído à vingança de Montezuma.


Antônio Labrador


O homem da avaliação das descobertas, misterioso e atrevido, mais conhecido como Labra. Pediu demissão inesperadamente, para alegria de todos os chefes e tristeza dos subordinados. Repartiu suas economias pelos pobres de Cachoeira Alegre e desapareceu para sempre, como um Dom Sebastião ou um deus Quirino. Deixou uma carta afixada no salão da geologia, dando por encerrada sua contribuição à causa do petróleo. Nela afirmou que se engajara no projeto de Cachoeira Alegre para cumprir uma vontade do pai, outrora um ativista na luta do petróleo. No final, uma mensagem para a Legião Estrangeira:


- Sou a vossa testemunha e me sinto grande porque sois grandes.

Início da produção comercial

Mais de duas centenas de poços, com capacidade total de 22.800 barris de petróleo por dia, foram postos a produzir, a uma ordem solene do presidente da companhia. Estavam presentes o vice-presidente da República, o presidente da Câmara dos Deputados, o Governador e muitos convidados.
Foi assim que o petróleo de Cachoeira Alegre começou sua carreira industrial. Ele se desloca horizontalmente pelos poros da rocha, lá na profundidade, até alcançar o poço e, então, ascende pela coluna de produção, na sua luta contra a gravidade, até chegar à superfície. Carrega consigo a energia de muitos derivados, e isso o coloca na galeria dos produtos mais cobiçados em todos os países do mundo.

Ulisses

O petróleo de Cachoeira Alegre carrega também, e portanto, o testemunho da presença da Legião Estrangeira, que ali aportou e viveu essa odisseiazinha sem registro, perdida nas muitas esquinas do tempo. A cada caso de Lampeão corresponde uma vingança de Montezuma, uma anedota do crioulo Florisval ou a desventura de um jovem qualquer, como o que enlouqueceu em pleno sertão, o que foi demitido covardemente, o que morreu no acidente com o jipe e o que economizou almofadas de esperanças e retornou para Minas Gerais com as mãos absolutamente vazias. Tudo isso ficou para trás, sem sequer deixar um nome e dormindo profundamente, como nas poesias de Manuel Bandeira.
Para frente, entretanto, o assunto é muito outro: mandacarus convivendo com cavalos de pau, barris de petróleo a mancheias nos tanques, muito dinheiro e progresso, porque a natureza tem horror ao vácuo.

Sertão e petróleo lado a lado, por 40 anos. Pelo menos.

(fim)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A BUSCA DO PETRÓLEO (parte 3/4)

Desenvolvimento

O lugarejo não passava de uma longa e acidentada rua de choças de barro. Sua população, pobre e doente, tinha, se tanto, uma vaga esperança na chegada da Grande Hora, a da fartura - ecos e rumores dos tempos de um certo Antônio Conselheiro, puxando a monarquia branca, ou emanados do Beatinho Zé Lourenço, que puxou a vaca preta nas suas
caminhadas errantes pelas bandas do Ceará. Histórias mal-ajambradas, que se confundiam com as lendas e mistérios do sertão.




Zé Lourenço
(Crato, 1937)


Antônio Conselheiro
(Canudos, 1897)

Muita coisa, todavia, iria se alterar em Cachoeira Alegre. Como as atividades do petróleo não podem dormir, nem guardar domingos e feriados, e seguem ininterruptas pelas 24 horas do dia, era necessário contar com quatro turmas por sonda que estivesse em operação. Três delas revezavam-se a cada oito horas, enquanto a quarta folgava. A qualquer momento, para cada homem nas sondas havia três homens honestamente no ócio. Destes, uns poucos deixavam-se ficar no acampamento, guardando repouso, estudando ou jogando cartas, mas a maioria andava pelos bares e pelo cabaré de Cachoeira Alegre.

Plataformistas, na sonda

O gigante oligofrênico fazia correr dinheiro abundante, antes mesmo de fluir a riqueza da terra. O mais notório dos comerciantes era o Corcundinha, que roubava no peso e na qualidade, cobrando um quilo de filé por oitocentos gramas de carne de pescoço, sem falar nas bebidas falsificadas e na água de torneira, que vendia como mineral. Ficou rico.
Das prostitutas, Mariazinha Bangu era nome citado em todas as sondas da região. Tinha pele morena, ar meio tímido, cara bonita e corpo redondo e delicado. Olhos sestrosos, que convidavam, e um largo balançar de quadris, retardativo, mas excitante. De vasta quilometragem, foi mulher de quase todos os petroleiros do sertão. Até que um dia o Florisval, que de laboré chegou a torrista titular, avisou, berrando no acampamento, que Mariazinha não seria nunca mais mulher de ninguém.

- Vou me casar com ela e espeto com peixeira enferrujada o primeiro que me chamar de corno.

Era uma lei, e essa lei pegou. Houve quem falasse mal dos petroleiros, da polícia, dos políticos, dos usineiros e até da Igreja. Houve, naquela época de guerra fria, de “progressistas” e “reacionários”, quem praguejasse contra russos e americanos ou acusasse de ladrão o poderoso Corcundinha.

- Que se saiba, porém, não houve em todo aquele sertão quem tivesse chamado de corno o crioulo Florisval.


Uma demissão


Tudo se foi cumprindo como programado. Ao cabo de quatro anos, os trabalhos adiantados mostravam um campo de petróleo quase pronto. Das 26 estações coletoras, 21 estavam concluídas. Mais de 200 poços tinham sido perfurados, completados e testados, prontos que estavam para produzir.
Cachoeira Alegre era, nesse ponto, um tema de interesse nacional. Foi nessa ocasião que um jornalista publicou nos “Diários Associados” e na “Folha de São Paulo” uma série de reportagens intituladas “Cachoeira Alegre, urgente!”, que mencionavam conflitos e discórdias entre os homens do petróleo, os usineiros e políticos da região de Cachoeira Alegre.

A matéria gerou muita confusão, envolvendo, de um lado, os petroleiros e, de outro, os prefeitos de três cidades, além de autoridades estaduais e ministros, inconformados com as inverdades e os exageros daquelas notícias. Sobreveio uma inesperada indignação oficial, pois o governo federal não queria mal-entendidos e distúrbios que prejudicassem sua base política no Congresso. Antônio Sepúlveda, acusado de informante do jornalista, foi demitido por ordem expressa do Rio de Janeiro, sob protestos inconformados da Legião Estrangeira.
Sepúlveda não esboçou nenhuma reclamação, retirou-se para São Paulo, onde se dedicou à construção civil e criou uma exitosa companhia de engenharia. É certo, porém, que abrigou para sempre uma mágoa profunda e dolorosa.


- O jornalista não teve a generosidade de dizer aos interessados, nem aos que me puniram, que nunca o vi em minha vida, nem tive nada a ver com aquelas reportagens.


A primeira estação

A primeira estação coletora de Cachoeira Alegre destinava-se a recolher, tratar e armazenar a produção de petróleo de dez poços situados nas proximidades do acampamento. No dia da inauguração, presente toda a Legião Estrangeira, promoveu-se uma pequena cerimônia, e alguns poços foram colocados em produção por dez minutos. Houve o discurso emocionado do Alfredo Velhinho e a votação que escolheu o nome da estação: Estação Primeira de Mangueira.

Estação Primeira de Mangueira

Uma semana depois, Cachoeira Alegre engalanou-se para receber uma comitiva de três governadores, seis senadores e vários deputados, entre os quais Fabrício Restrepo, que estava acompanhado de sua mulher Helena, para além de inúmeros intelectuais e jornalistas. A Legião Estrangeira interrompeu suas atividades e, de paletó e gravata, deu explicações sobre exploração e produção de petróleo.
Uma comovente cerimônia teve lugar na Estação Primeira de Mangueira: o batismo de petróleo da comitiva visitante. Toledo, o engenheiro-chefe da produção, mergulhava as mãos no petróleo abundante, negro e viscoso, e as oferecia para o cumprimento emocionado dos convidados, organizados numa fila longa e paciente.

Fabrício Restrepo, as mãos sujas de petróleo, tomou a palavra para enaltecer a política nacional de energia e o decisivo apoio das autoridades federais, estaduais e municipais, ele que era orador de idéias panegiricais e longos exórdios. Seus gestos largos faziam espirrar petróleo em todas as direções, enquanto invocava e celebrava os nomes de Edson de Carvalho, Monteiro Lobato, Oscar Cordeiro e Horta Barbosa.

- Viva o general Horta Barbosa!

Sua mulher Helena, rapidinha e de enredo planejado, aproveitou o longo discurso do marido e escamugiu-se pelo mato com o geólogo Joaquim Peruano. Brasil e Peru, com trocadilho, vivados, tanto no palanque como na caatinga, com igual veemência e arrebatamento.
Helena de Pinho Restrepo entrou para o folclore do petróleo, e seu nome correu sonda, substituindo o nome proibido de Mariazinha Bangu.
(conclusão na segunda-feira, 14/4/2008)

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A BUSCA DO PETRÓLEO (parte 2/4)

Cachoeira Alegre

A broca atrevida foi delatando, chão abaixo, as riquezas escondidas do sertão. O que se queria era petróleo, e petróleo abundante foi descoberto, ali, no arraial de Cachoeira Alegre, exatamente onde Lampião enfrentou os macacos, a ponta de sabre, trinta anos atrás.

Virgulino Lampião

No início, pensou-se em acumulação pequena, mas os poços de extensão e de delimitação, a partir do poço descobridor, foram encompridando cada vez mais a descoberta. E, melhor ainda, o reservatório geológico era fraturado, devendo-se somar ao petróleo dos poros o petróleo generoso e abundante das fraturas.

- Volume original de dois bilhões de barris de petróleo.

-
Um campo gigante?

- Sim, um gigante, mas oligofrênico. Pressão, porosidade, permeabilidade, aqüifero, tudo nele é normal, como se fossem dados de livro. Infelizmente, porém, a alta viscosidade do óleo não permitirá recuperar mais do que vinte por cento do volume original. Mas é campo dos bons, dos graúdos, “a very good elephant”. Ou você não gosta de 25 mil barris de petróleo por dia?

O campo descoberto, que correspondia na superfície a cerca de vinte quilômetros quadrados, iria requerer duas centenas de poços de produção e 26 estações coletoras de petróleo. Os poços seriam perfurados, testados e estimulados, após o que ficariam fechados até o dia em que, todos juntos, seriam definitivamente abertos à produção comercial. Enquanto isso, e até lá, seriam construídas as linhas de captação, os separadores, as estações coletoras e a estação central. Paralelamente, o oleoduto, partindo da estação central, cresceria feito cobra, sertão adentro, na direção do mar.
Assim se imaginou, assim teria de ser feito. Trabalho para quatro, cinco anos, mobilizando dez sondas de perfuração e mil e quinhentos homens, entre técnicos, operários especializados e laborés - uma corruptela de “laborers”, que é como os americanos dos primeiros tempos chamavam os trabalhadores braçais.


Legião estrangeira

Um dia Joãozinho Cascavel chamou o grupo do Labra de “Legião Estrangeira”. Vindos dos mais diversos pontos do país, e até do exterior, eram geofísicos, geólogos, engenheiros, administradores, químicos, mecânicos e topógrafos, que a mão invisível de Adam Smith reuniu no sertão para fuçar os segredos da natureza. O núcleo que comandava a inteligência das operações a serem executadas. Todos ficavam sediados em Cachoeira Alegre, onde havia petróleo descoberto e obras gigantescas a serem executadas para colocá-lo em produção comercial - a fase de investimentos importantes conhecida como "desenvolvimento do campo".


À noite, no salão da geologia, que se situava no centro do acampamento, os da Legião Estrangeira que estavam de folga reuniam-se para contar suas histórias, dramas e ambições. Menos o Nilberto Boaventura, que não conversava com ninguém e sempre se recolhia nos momentos de lazer, e o Carlinhos Mineiro, isolado na sua barraca para contar e recontar seus dólares, que escondia em almofadas de couro. Não confiava nos bancos. Vale citar ainda o Joaquim Peruano, que nas folgas longamente ansiadas desfilava sua beleza pretensiosa nas praças mal iluminadas de Aracaju. Ah, havia o Severo, um geofísico de reconhecida capacidade na interpretação de dados sísmicos, que todas as noites se trancava no almoxarifado para ler obras de Joyce, Proust, Shakespeare e Machado de Assis, ele que certa vez presenteou todo mundo com uma cópia do "Burrinho Pedrês", de Guimarães Rosa. Severo era muito erudito e em todas as oportunidades gostava de citar a frase que "Otelo" ouviu de "Iago":

- Quem rouba a minha bolsa, rouba lixo.

Burrinho Pedrês
Outras descobertas

Aproveitava-se a infra-estrutura de Cachoeira Alegre para apoiar as tentativas de descobrir mais petróleo em outros sítios, situados a distâncias que às vezes alcançavam até cem quilômetros. Os técnicos de avaliação de descobertas ficavam sediados em Cachoeira Alegre, desempenhando múltiplas tarefas, mas viviam o permanente sobressalto de largar tudo para apressadas viagens, se houvesse localização de novas acumulações pioneiras de petróleo.

De vez em quando chegavam telegramas nervosos do Rio de Janeiro, que colocavam a legião estrangeira em grande atividade:


“Deslocar imediatamente equipe avaliação para testar descoberta petróleo poço pioneiro localidade de Treme.”

O grupo se reunia às pressas e seguia, todo excitado, para Treme, onde assumiam o comando da sonda pioneira e acoplavam à coluna o legendário testador de formação, que registrava as variações de pressão numa carta especial. Seguia-se um ritual de aberturas e fechamentos do poço, medindo-se cuidadosamente os volumes do petróleo produzido. Terminada a operação, o Labra, debruçado sobre o micrômetro, lia os registros da carta e traçava a curva de crescimento de pressões.

Carta que resulta da avaliação com o testador de formação

Se após uma produção de petróleo razoável, houvesse regeneração da pressão original no confronto logarítmico com o tempo, o reservatório de petróleo descoberto era considerado “infinito” e o campo, comercial.
Na maioria das vezes, porém, os resultados eram desapontadores. A acumulação de Treme , no veredicto do Labra, foi considerada pequena e depletiva, sem interesse comercial.

De outra feita foi Lagos. Descoberto petróleo em Lagos! O cortejo se deslocou gloriosamente para cumprir o mesmo ritual. O Labra, com a autoridade do seu micrômetro, assegurou que a formação era fechada, de baixa permeabilidade e sem perspectivas de produzir quantidades comerciais de petróleo. Uma decepção.
Menos mal que o poço de Lagos descobriu importantes minas de silvita, carnalita e sal-gema, mas isso é outra história. Outra história!

Vingança de Montezuma

Montezuma

Nos grandes deslocamentos entre o acampamento e as locações pioneiras, por estradas estreitas, irregulares e poeirentas, os acidentes não eram raros e às vezes alguém morria. Dizia-se no acampamento de Cachoeira Alegre que essas mortes eram uma vingança de Montezuma.

- Montezuma, ora essa, que tem Montezuma a ver com este sertão?

Se ninguém sabia explicar, ninguém todavia duvidava: só se morria ali por causa da vingança de Montezuma.
Triste, mesmo, foi a morte do Perel, o químico de lama das brincadeiras inocentes. Seu jipe despencou mais de cinqüenta metros, na terceira curva da serra de Limeira. Nesse dia alguém escreveu no quadro-negro do salão da geologia um verso de Bandeira:

“Dessas rosas, muita rosa terá morrido em botão...”
(continua na sexta-feira, 11/4/2008)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

A BUSCA DO PETRÓLEO (parte 1/4)

A sonda

Subitamente o sertão foi avassalado por homens que chegavam de jipe, à frente de grotescas máquinas transportadas por imensos caminhões amarelos. Durante muitos dias tratores especiais, muito ágeis, foram construindo acessos até o ponto do terreno onde seria perfurado o poço. Depois, a sonda. Num ritual impressionante, o guincho, que não passava de um pequeno guindaste, levantou o mastro, instalou as bombas de lama e posicionou o motor e o tanque de combustível. Seguiram-se as pequenas obras de ocupação, tudo feito com rapidez e cuidado, pois nada podia falhar. Por último, construiu-se a "casa do cachorro", de madeira sem pintura, mas sólida, para servir ao descanso dos sondadores.

Terminados os preparativos e vencidas todas as inspeções, começou o trabalho da perfuração. Lá em cima, o torrista, operário das alturas, fazia seu número de acrobacia, abraçando-se ao tubo mais elevado da coluna a cada evolução do bloco viageiro, que ali todos chamavam de "catarina". Errar o torrista não podia, pois, se caísse, não teria nenhuma salvação. Embaixo, sem acrobacia, os plataformistas depunham a força de seus músculos e de sua alma na conexão de cada tubo de perfuração à coluna sustentada pelas cunhas da mesa rotativa. Ao sondador, que tinha ascendência operacional sobre os outros, cabia manipular as alavancas, fazendo girar a coluna para regular o peso sobre a broca, que, sem opção, ia penetrando a terra de maneira inexorável. Cascalhos e detritos, que resultavam da ação trituradora da broca, eram trazidos pela lama de perfuração, examinados pelo geólogo e descartados na peneira vibratória.
Não se sabia exatamente quem era autoridade maior na sonda, se o engenheiro de perfuração ou o geólogo de poço. Ambos tinham muito poder. O engenheiro dava as ordens ao sondador e especificava o número de comandos, que são os tubos mais pesados que descem junto da broca, tanto quanto o peso da coluna, suas rotações por minuto e a densidade do fluido de perfuração. O engenheiro também administrava a disciplina: as brigas eram punidas com suspensão e redução de salário e os acidentes, se resultantes de negligência, com demissão por justa causa.
Havia, porém, o geólogo, uma espécie de eminência parda, sempre calado, a recolher na peneira da lama os cascalhos e fragmentos de rocha, que a sonda ia vomitando, para examiná-los cuidadosamente com auxílio de um microscópio. Para o geólogo, o importante era reconhecer os sedimentos penetrados, se folhelhos, arenitos ou calcáreos, confrontando a seqüência que se ia obtendo com os dados sísmicos recebidos do Rio de Janeiro. Os operários diziam divertidamente que ele lambia as amostras, pois nos seus relatórios, descrevendo cuidadosamente as formações perfuradas, nunca deixava de informar o sabor das rochas, "ácido", " sabor indefinido", "alcalino" e "neutro". Certa vez disse, de um siltito, que "tinha sabor de limão".
Em certas ocasiões, o geólogo chamava discretamente o engenheiro, murmurava-lhe algum recado, e a perfuração era interrompida:

- Vamos condicionar o poço para a perfilagem!

Ou então:

- Preparar para testemunhar!

Começava então a operação complicada de desconectar tubos em seções de três, até a última, que vinha com a broca. E, a seguir, conectá-los novamente, já com a broca de diamante e o barrilete na extremidade da coluna, para encamisar e trazer para a superfície um comprido cilindro da rocha testemunhada.

Broca e barrilete

Aquela gente engraçada, de jaquetas cinzentas e capacetes de aço, que dormia em barracos de lona, e de luz acesa por temer os barbeiros, entrou no sertão sem pedir licença, arrostando a miséria do alto dos seus imensos coturnos. Para fazer história. Era a busca do petróleo.

Para fazer história?

Tudo começou em 27 de agosto de 1859, quando o "Coronel" Drake descobriu petróleo na Pensilvânia. Um evento que iria revolucionar o mundo. Pois o querosene, que se obtém na destilação do petróleo, foi prontamente utilizado na iluminação noturna, substituindo tanto o canfeno, dos pobres, quanto o óleo de cachalote, que fazia a luz dos ricos.

Primeiro poço, 1859, Titusville, Pensilvânia

Nem mesmo a lâmpada elétrica, apresentada em 1892 por Thomas Alba Edison, conseguiu interromper a carreira do petróleo, pois a seguir Henry Ford apresentou o carro com motor de combustão interna, que utiliza gasolina, logo seguido do motor a diesel. Vieram depois, e progressivamente, as utilizações dos outros derivados, seja no consumo direto ou como insumo petroquímico.
O petróleo passou a definir quem podia preponderar e quem devia se submeter. A luta de homens, ao lado de outros homens, ou contra eles, por uma hegemonia. O armênio Calouste Gulbenkian, chamado de "Senhor Cinco Por Cento", afirmava que as companhias de petróleo eram como gatos:

- Pelo barulho nunca se pode saber se estão brigando ou se fazendo amor.

Brigando de forma encarniçada ou amando-se com ternura, as companhias assinaram acordos secretos, como o do castelo de Achnacarry, na Escócia, no ano de 1929, que repartiu entre elas as reservas de petróleo e o mercado consumidor mundial. Suas cláusulas neutralizaram por mais de um quarto de século a lei da procura e da oferta do petróleo, substituindo-a pela lei da impostura muito esperta do finório.
Desde o final do século XIX houve desmedido interesse das companhias de exploração pelos pólos petrolíferos privilegiados, como os dos Estados Unidos, Rússia, Sumatra e México, e, após, já no século XX, os do Irã, Venezuela, Iraque Arábia Saudita e Kuwait.

E o Brasil?

Ficava condenado a ser um consumidor de derivados de petróleo importados. Nenhum interesse houve dessas companhias pelo petróleo do subsolo brasileiro, de localização difícil naquela época.
Por isso:

(1) Das questões brasileiras, a do petróleo, era, na década de 1960, uma das não resolvidas.

(2) Os intrusos de botas militares e capacete de aço, que erravam então nos rasos de Sergipe, com suas máquinas barulhentas e desengonçadas, estavam, sim, fazendo história, muita, no Brasil.
(continua na quarta-feira, 9/4/2008))

segunda-feira, 31 de março de 2008

ENTROPIA

A Morte Térmica do Universo

Dar uma aula é uma arte, como representar num palco, e o professor,
se de fato competente, deveria ser aplaudido de pé, como na ópera profissional. Penso nisso por causa de um desconhecido, que, levado pelas peripécias da conversação, acabou ensinando logaritmos neperianos e cálculo diferencial para bibliotecárias e advogados, que não tinham com esses temas nenhuma familiaridade. Na mesa do bar! Depois, respondendo à perplexidade dos presentes, o fulano proclamou que todas as matérias podem ser rapidamente entendidas pelos alunos, independentemente de sua qualificação e prévios conhecimentos.

- Nada é difícil. O que há é a figura do assunto mal ensinado, entendeu o recado?

O calor recebido é igual

Tivesse a capacidade desse desconhecido, e um pouco da sua autoconfiança, eu poderia explicar a todas as torcidas que o crescimento inexorável da entropia causará a morte do Universo. De fato, se coloco um bolo quente dentro de um forno frio, ao fim de certo tempo o forno e o bolo estarão à mesma temperatura, situada necessariamente entre as temperaturas iniciais do bolo e do forno. O bolo cedeu uma determinada quantidade de calor, e o forno recebeu integralmente esse calor, sendo a quantidade de calor cedida pelo bolo rigorosamente igual à quantidade de calor recebida pelo forno, porque a passagem espontânea de calor de um corpo quente para um corpo frio não produz nenhum trabalho - eis como os físicos se expressam quando querem dizer que não há desperdício de energia no desenvolvimento do processo considerado. A doação de calor é irreversível, não sendo possível que o bolo e o forno, agora à mesma temperatura, revertam-se espontaneamente ao bolo quente e ao forno frio do início da nossa experiência.

Mas a entropia é maior...


Um alemão chamado Rudolf Clausius propôs em 1865 denominar de entropia o que se obtém dividindo a quantidade de calor de um corpo pela sua temperatura. A entropia cedida pelo bolo (penso na quantidade de calor fornecida dividida pela temperatura inicial do bolo) é menor que a entropia incorporada pelo forno (penso agora na quantidade de calor recebida dividida pela temperatua inicial do forno). A cessão de calor do bolo para o forno resultou, pois, num aumento de entropia, pois a entropia recebida pelo forno foi maior que a entropia cedida pelo bolo. Eis o milagre da geração espontânea de entropia!

- Não entendi, observa Magno Fricatore, o aluno mais atento e menos inteligente.

- É o seguinte, replico pacientemente. Quem cede calor, cede entropia, que é o calor cedido dividido pela temperatura grande. Quem recebe calor, recebe entropia, que é o calor recebido dividido pela temperatura pequena. O calor recebido é igual ao calor cedido. Logo...

- Logo, a entropia recebida é maior que a entropia cedida.

- Bingo!


Anotem, senhores alunos, anotem nos melhores cadernos: nas trocas de calor, irreversíveis, a entropia recebida é sempre maior que a entropia cedida. "Sempre" é "sempre" mesmo!

Fim da História

O Universo encontra-se em estado de desquilíbrio térmico, entre as estrelas, nas quais as temperaturas são extremamamente elevadas por causa das fusões de átomos que nelas se processam, e o formidável espaço ambiente, que é exageradamente frio. As trocas de calor, espontâneas e irreversíveis, pelas quais as estrelas vão perdendo calor para o conjunto do Universo, continuarão pelos séculos, e bota bilhões de séculos nisso. Gerando nesse processo entropia inexorável e superabundante. Quando a temperatura de todo o Universo tornar-se a mesma, cessará a produção de energia nas estrelas, e os processos ligados à ordem e à informação, como a vida, não serão mais possíveis.

- De fato?

- A História terá chegado ao fim. A entropia não crescerá mais, pois terá atingido o seu valor máximo, e o Universo, incapaz de qualquer atividade, estará morto. Morte irremediável, inarredável, inapelável e inescapável, por falta de fontes quentes (ou frias) ou trocas de energia. Como dirão os tablóides ingleses, a entropia é a morte térmica do Universo.

Maria Callas

Essa, a primeira versão da minha aula. Como o professor dá a mesma aula para várias turmas e tem de repeti-la ano após ano, minha explicação sobre a entropia seria cada vez mais elaborada e competente, desmoralizando todas as dúvidas. Assim seria, tenho certeza. Um dia, o aluno da primeira fila puxaria emocionadamente os primeiros aplausos, seria seguido por dois outros, e por outros mais, até que, ao final, pelo menos metade da classe estaria me aplaudindo, como se eu fosse um Frank Sinatra ou um Hamlet envenenado. Eu então me curvaria num gesto de agradecimento, humilde, como um São Francisco, mas envaidecido, como uma Maria Callas.
(fim)

segunda-feira, 24 de março de 2008

ACHEGAS GENIAIS

EU e outros poetas

('É porque nada sou que tudo sinto!' - Augusto Frederico Schmidt)


EU, que comecei a morrer muito antes de ter vivido...

EU, que perdi o bonde e a esperança...

EU, que te peço perdão por te amar assim tão de repente...

EU, que comigo me desavim, não posso viver comigo, não posso fugir de mim...

EU, que te quero verde, verde vento, verdes ramas...

EU, palhaço das perdidas ilusões...

EU, que te direi as grandes palavras...

EU, que ganhei (perdi) meu dia...

EU, uma educação pela pedra, por lições, para aprender da

pedra, freqüentá-la...

EU, que guardo no peito a imagem querida do mais verdadeiro,
do mais santo amor...

EU, que trago-te flores - restos arrancados da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa, e separados...

EU, que serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade
e saio da vida para entrar na História...

EU, que até morrer estarei enamorado de coisas impossíveis...

EU, que errei, fui homem...

EU, que nada posso lhes prometer, a não ser sangue, suor e lágrimas...

EU, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas...

EU, que na curva perigosa dos cinqüenta derrapei neste amor...

EU, eunuco, reles, verme, incauto e sagaz...

EU! Ai do que em mim me chamo EU!

EU? EU sou o Incriado de Deus, o demônio do bem e o destinado do mal, mas EU nada sou!


Observação do gozador, no quadro-negro


- EU, filho do carbono e do amoníaco, já Bocage não sou.

sexta-feira, 21 de março de 2008

MANUEL BANDEIRA

Desencanto

Eu faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.


Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.


E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira (1886 - 1968)

terça-feira, 18 de março de 2008

GRACIAS A LA VIDA

REFLEXÕES DE UM PRISIONEIRO

Muita sorte ter nascido racional, e não lagartixa, eucalipto, jaguatirica, guaxinim ou pé de couve. E dispor da faculdade de falar, aprender, protestar, ensinar, cantar, ter consciência e memória, amar, recitar, amarrar os cordões dos sapatos, agradecer, pecar, errar, escrever, amar novamente e, tendo chance, amar ainda mais e intensamente.

- E regozijar-me por estar presente na grande festa do Universo.

Nem me importa se estou sendo
aplaudido em Curitiba, almoçando em Cascais, enguiçado na estrada ou, enfim, arrestado nesta prisão que nem sei onde fica. Outra sorte, muito grande, é ser dos que recebem muito e retribuem com pouco. Quem, sozinho no mundo, poderia fabricar seus próprios chinelos, a camisa, o leito, a casa, a vara de pescar, o cabrito à lagareira, a pulseira, o garfo, a caneta, as polainas, o fio dental, o editorial e a luz polarizada? Quem, sozinho, haveria de plantar trigo, tanger os bois, pensar as feridas, construir teatros, calcular juros compostos, aplicar a regra de Sarrus, gerar, transmitir e distribuir eletricidade, varrer a sala, redigir a petição com espaço de oito linhas, decifrar hieróglifos, pedir vistas, tirar fotografia, calcular o logaritmo neperiano de 118 e a constante de Planck, compor uma sinfonia de Mahler, participar de assembléias gerais de acionistas, canalizar a água, acompanhar as fases da Lua, comer sanduíche de presunto, extrair raízes quadradas, averiguar os suspeitos, comentar partidas de tênis, matar baratas, inventar o automóvel, discutir a lei do impedimento, candidatar-se a deputado, calibrar galvanômetros, registrar os fatos econômicos em partidas dobradas, fazer caridade, estudar taboada e cálculo integral, ligar o computador, temperar a feijoada, saber o que é zigoto, monera e esclerótica e, além disso, ler Tolstói, Pico della Mirandola, Honoré de Balzac e Guimarães Rosa, aplicar na Bolsa, assoar o nariz, receber aluguéis, saber a importância de Oersted, ir ao barbeiro, cantar boleros, visitar Nova Orleans, ser dono de uma franquia dos correios e empregar-se como faxineiro do Observatório Nacional? Quem poderia saber sobre a soma dos quadrados dos catetos? A conjugação perifrástica? A localização do músculo psoas maior? A importância da quiáltera e a precessão dos equinócios?

- Ninguém poderia.

- Somos, com efeito, o conjunto dos seres que devem quase tudo ao próprio conjunto.

Há, pois, uma generosidade em cadeia, generalizada, sistêmica, involuntária, inevitável, tácita, impercebida e espontânea, e, na fartura de tantos desfrutos, cada um recebe muito mais do que dá, violando os princípios da matemática - o total das contribuições recebidas por todos é infinitamente maior que o total das contribuições por todos fornecidas. Uma mão invisível, que não é a de Adam Smith, exagera nos benefícios e distribui bondades e considerações de toda natureza: eis, senhoras e senhores, o milagre da multiplicação das benesses.

- A multiplicação de benesses é uma propriedade da vida em conjunto.

Violeta Parra

Gracias a la vida

Que me ha dado tanto

Me dio dos luceros

Que cuando los abro

Perfecto distingo

Lo negro del blanco

Y en alto cielo
Su fondo estrellado

Y en las multitudes

La mujer que yo amo
Gracias a la vida

Que me ha dado tanto

Me ha dado el sonido

Y el abecedario

Con el las palabras
Que pienso y declaro

Madre amigo hermano

Y luz alumbrando

La ruta del alma

De mi bién amada

Gracias a la vida
Que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha
De mis pieds cansados

Con ellos anduve

Ciudades y charcos

Playas y desertos

Montañas y llanos
Y a la casa tuya
Tu calle y tu patio

Gracias a la vida, gracias a la vida...


"Gracias a la Vida", da chilena Violeta Parra, deveria ser cantada pelos pequenos alunos, fosse antes ou depois dos hinos e dos discursos da diretora. Ah, após o canto, perder um minuto escasso para refletir sobre Mohandas Karamchand Gandhi, pois o homem pode ser decisivo sem deixar de ser generoso.


Rei do espaço infinito


- O God! I could be bounded in a nut-shell, and count myself a king of infinite space.

Embora prisoneiro, posso reinar pelo pensamento, como um Hamlet confinado numa casca de noz. Soltando a minha imaginação, que esta é livre e soberana. Sou o rei do espaço infinito.


(fim)

terça-feira, 11 de março de 2008

A MÃO INVISÍVEL

O CRÉDITO DE CADA UM

Júlia preside a sessão e segue apresentando o conferencista William Bird, ela que se empenhou para garantir-me este lugar na platéia. Eu a conheci há menos de uma semana, o que me deixa de peito aquecido e com a responsabilidade de me interessar pelo assunto.

-Quem sabe vão ensinar a arte de ganhar dinheiro na Bolsa de Valores?

Sorte que esse Bird, professor de Harvard e colunista do Washington Post, já morou no Brasil e fala Português sem nenhum sotaque. Li uma vez que foi dele o primeiro artigo sobre o uso das curvas de utilidade na avaliação econômica dos projetos de risco. Para mim, trata-se de uma fraude requintada, que descaracteriza a responsabilidade pelas decisões assumidas. Pois, ocorrendo o prejuízo, a falha será do projeto, pertinaz e refratário, e de suas insuficientes e traiçoeiras probabilidades. Nesse caso bastará dizer para os acionistas, com toda a modéstia e sinceridade:

- Lamento muito.

Se, entretanto, o improvável ocorrer e o projeto for bem-sucedido, você será reconhecido como um gênio, assim humilde, a circular generosamente entre os mortais e sério candidato a uma recompensa a ser estabelecida pelo conselho de administração, nas avaliações anuais de desempenho. O super-homem da utilidade destemida.

Adam Smith

William Bird começa com a pergunta que dá o tom da conferência:

- Por que não faltam técnicos nas plataformas geladas do Mar de Behring, nem embaixadas em Guiné-Bissau ou arroz em Nova York?

A resposta será a sua aula, ou seja, nada de Bolsa de Valores. Por que contrataram um professor americano para ensinar sobre isso? Tenho para mim, muito para mim, que esse negócio de Adam Smith todo mundo sabe, o pipoqueiro, a prostituta, o corredor de meia-maratona, o agrônomo, o estalajadeiro e a tia do Rigoletto. Estudei isso superficialmente no primeiro ano da faculdade, junto com estatística, logística dos transportes, perfumaria e outras generalidades.

- Por que há uma mão invisível, a do mercado, que coloca arroz e frangos em Nova York e embaixadas em Guiné-Bissau. Exatamente isso, nem mais, nem menos do que isso. Para qualquer bem ou serviço, há uma curva de quantidade demandada, a verde, que se assemelha ao ramo positivo de uma hipérbole equilátera, e uma curva de quantidade ofertada, a vermelha, de sentido contrário, a fazer-lhe o contraponto. Num mercado em funcionamento, as duas curvas se cruzam. E é bom que o façam, pois, do contrário, o mercado desaparece e... adeus bem ou serviço! O ponto de encontro das duas curvas define e o preço e a quantidade realmente negociada do bem ou serviço em questão, não importa se sal de cozinha, sanduíche de mortadela, apartamentos de cobertura ou perfume francês.

Curvas do sanduíche de mortadela

A linguagem dos economistas é cheia de louçanias, belas como uma tela de Matisse. Ramo positivo de uma hipérbole equilátera, quantidade demandada, lei dos rendimentos decrescentes, necessidades geométricas de Malthus...

- Os fatores da produção são a natureza, o trabalho e o capital, prossegue o professor. Num certo sentido, porém, esses fatores reduzem-se a dois, natureza e trabalho, com a exclusão do capital, pois este resulta do trabalho em face da natureza, da capacidade de prever o futuro e da vontade de poupar e fazer provisão.

- Os fatores de produção são sempre remunerados?

-
Numa economia livre, certamente. Tudo que se recebe a título de remuneração do trabalho, do capital e da natureza forma a renda nacional. Nesse sentido, alguns cuidados são essenciais, conforme alertou Hubert Védrine, ministro francês, em recente discurso perante a Comunidade Econômica Européia. Ele o fez jocosamente, provocando o riso das autoridades presentes.

- Na Comunidade Européia, jocosamente?

- Sim, muito jocosamente. Há, há, há! Védrine lembrou que é impatriótico casar com a governanta, pois um salário é imediatamente cancelado, diminuindo a renda nacional.

Hubert Védrine

Todos riem. Não sei por quê, as pessoas, quando em grupo, têm mais disposição para o riso, e todos os chistes são bem-sucedidos. É aí que entra o Freud: sozinho sou uma coisa, no grupo sou outra diferente, e na multidão sou uma gota dentro de uma nuvem. Choverei também, se a decisão for a de promover uma tormenta.


- Estão rindo? Será que vocês ousariam pedir recibos às suas mulheres? Se o fizessem, poderiam abater suas mesadas dos rendimentos tributáveis, mas elas teriam de fazer declaração de renda!

- Boa idéia, professor, boa idéia!


Piada de economista é sempre assim, magnificar a renda nacional, não casar com a governanta, deduzir a mulher no imposto de renda...


O quinhão do William Bird

Terminada a aula, Bird é aplaudido entusiasticamente, como se tivesse cantado uma ária de Bizet ou formulado uma das leis de Newton. Ele, o Bird, embolsará três mil dólares, um “fee” nada desprezí (zá) vel, livre de impostos e despesas de qualquer natureza. Ou, como escreveu na carta-resposta que Júlia me mostrou, “free of taxes and expenses whatsoever”. Júlia terá enriquecido o seu portfólio. Os assistentes, quase todos doutorandos, receberão créditos universitários e menções curriculares.
E eu? Isso mesmo, e eu?

- Estou apaixonado pela Júlia.
(fim)

terça-feira, 4 de março de 2008

O MUNDO ADMIRÁVEL

PERFEIÇÃO

Assertivo e paciente, o doutor Crisóstomo sempre se mostrou tolerante com a nossa ignorância.

- No mundo que nos sucederá ser
ão proibidas a História, a Economia e a Divisão do Trabalho, ramos do conhecimento que estão na origem de todos os males. O homem integral não necessita nem de Henry Ford nem de Heródoto; antes os despreza.

Heródoto
- Não entendi...

- Numa sociedade sem moedas, bancos, promissórias, juros e aluguéis, cada qual será seu próprio Mário Henrique Simonsen, cantando ópera no banheiro. Sem História, nunca se aprenderá sobre guerras, e, sem Engenharia, não haverá telefones celulares, fornos elétricos e câmeras fotográficas digitais. Nem aceleradores de partículas, golpes de aríete ou virabrequim, cujo desgaste é intolerável.

- E então?

- O homem estará novamente no paraíso.

Entidades inexistentes

Nega Fulô

Segundo o Crisóstomo, as seguintes entidades não existirão no mundo latino sem guerras:

Teorema de Tales
Lei dos grandes números
Gatos pardos, pingados e escaldados
Tribunal de pequenas causas
Elevadores e logaritmos neperianos

Críticos de cinema, dilema e eczema
Bidê, dendê e meus óculos, cadê?
Macbeth e Lady Macbeth

Teoria Geral do Estado e estado geral da teoria
Relógios, atrito de rolamento e elefantíase
Pisicanalistas e ansiedades básicas
Maiô e essa nega Fulô
Paris, Texas
Questão Christie
Comida a quilo, rádios de pilha, sacos cheios e conjuntos vazios

Medidas provisórias, cadernos de encargos e telefone
Torcicolo e dependências de empregadas
Ponto flexível, ponto de vista, duas horas em ponto e eu dormi no ponto
Viés diagonal e reversão de expectativas
Tratado básico de eletricidade, sem mestre, terceira edição.

O Oriente será habitado por gente pacífica, e no Vietnã as crianças soltarão pipas coloridas no Golfo de Tonquim.
Heráclito se esquecerá de dizer que "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio". Porque Heráclito, coitado, já não será o mesmo, nem o rio.
As indiretas serão abolidas, e o bolo, repartido.
Políticos não serão molestados, como de outras vezes, pela peste suína africana, médicos não farão greves, e o MAM, ao queimar, poupará Mathieu e Portinari.
Serão abolidos os telegramas, as genuflexões, a luz polarizada, os ensinamentos de Pontes de Miranda e a paulatina, mas eficiente, poluição da Baía de Guanabara.

Código

Apenas um monumento será erigido num sítio escolhido, a seu tempo, para ser a capital do admirável mundo novo. Nele se lerá o único código permitido:

Código

"Guerra a todas as máquinas de calcular, aos índices de produtividade, à estatística e à inflação persistente, mas controlada;
Guerra às democracias, ao ângulo obtuso, ao número 18 e aos nomes de guerra;
Guerra à lei da gravitação universal, ao ano decretório, à tripanossomíase sul-americana e aos mecanismos de defesa do nosso ego atribulado;
Guerra ao crivo de Eratóstenes, ao Estreito de Dardanelos e ao esternoclideomastóideo;
Guerra às divisões celulares, à segunda divisão e às divisões blindadas;
Guerra ao anacoluto, ao estilo gótico e ao Tratado de Tordesilhas, revisto e ampliado;
Guerra a todas as guerras."

Esta guerra, com efeito, existirá.
(fim)