sábado, 14 de março de 2015

 Parte Dois: Bacon escreveu o "Dom Quixote"?

A postagem sobre a autoria de "Dom Quixote", de 11/3/2015, motivou relevantes comentários da advogada carioca Cláudia Werneck. Vale a pena conhecer:

Resultado de imagem para dom quixote


" Essas polêmicas são relevantes quando reacendem o interesse por obras importantes da literatura mundial. Contudo, uma certa angústia me sobe com uma teoria que visa à apropriação da obra de um país em proveito de outro, o que é particularmente grave, além de negar autoria e diminuir um dos autores mais reconhecidos no mundo, numa espécie de negação post-mortem. 

Lembremos que, na época da publicação de Don Quixote, Espanha e Inglaterra eram países em inimizade aberta (“The Anglo–Spanish War (1585–1604) was an intermittent conflict between the kingdoms of Spain and England that was never formally declared.” https://www.onwar.com/aced/chrono/c1500s/yr80/anglospanishwar1585.htm). 

Não consigo imaginar, sem ler o livro de Carr, quais seriam as razões que poderiam levar um nobre inglês a engendrar a publicação de uma obra sua em espanhol, em um país   em conflito frontal com a Inglaterra, para, só após, publicá-la em inglês em seu país, em nome de um nobre espanhol, que seria sempre considerado o verdadeiro autor dessa obra perante o mundo inteiro. Isso sem contar as várias imperfeições da versão inglesa de Thomas Shelton, como a crítica mais refinada já apontou. Nem me atrevo a acusar de desonestidade intelectual o senhor Carr, cujas motivações desconheço, que tem o mérito de apontar singularidades relacionadas a Dom Quixote, mas não pode roubar da Espanha sua maior obra, aquele que é considerado o maior romance da literatura mundial.

Uma coisa é divagar sobre a veracidade da autoria da obra shakespeariana, outra é negar autoria de obra estrangeira, publicada primeiramente em país praticamente inimigo, embora os conflitos não fossem oficialmente declarados. Aí já é falta de honestidade.
Que prova existe de que Cervantes escreveu o "Dom Quixote"? Não existe nenhum manuscrito, carta, diário, testamento ou documento de nenhuma natureza indicando que Cervantes foi o autor da obra-prima. Nenhum retrato, nenhuma referência no túmulo, nem registro de algum pagamento recebido pela obra.” 
E a disputa entre Cervantes e López Vega? (La polêmica entre ambos és bastante conocida. Sus escritos están plagados dedardos envenenados Y referncias mutuas más o menos explícitas. Lope,por Cervantes, mostra una mezcla deadmiración y desprecio; Cervantes, en cambio, nunca ocultó su opinión sobre Lope.") 

http://desequilibros.blogspot.com.br/2011/01/polemicas-literarias-cervantes-vs-lope.html#.VQEKsPnF_NM. 

Ver também:  

  http://circulodepoesia.com/2012/02/rivalidades-literarias-cervantes-vs-lope-de-vega/.

Seria comum na Idade Média e Renascença manter diários, cartas, testamentos, documentos, ou era mais comum haver escassa documentação? E tais coisas não se perdem, não se deterioram? Na época, nada era publicado sem o aval da censura, o que validaria a autoria de Cervantes, pois não parece lógico que Bacon se submetesse ao exaustivo trabalho de traduzir o livro para o espanhol, remetê-lo à Espanha, submetê-lo à censura espanhola, para que concordasse com a sua publicação.

(“El proceso previo a la publicación de la obra fue el común en la época: Cervantes presentó al Consejo de Castilla el original manuscrito (casi con toda seguridad una copia en limpio, no autógrafa), solicitando la licencia para imprimir la obra, habiendo apalabrado previamente la edición con el librero y editor Francisco de Robles. Este confió la impresión al antiguo taller de Pedro Madrigal, ahora en manos de su viuda, María Rodríguez de Rivalde. El yerno de esta, Juan de la Cuesta, actuó de regente entre 1599 y 1607, año en que salió huyendo de Madrid debido, probablemente, a un problema de endeudamiento, aunque su nombre siguió figurando cerca de veinte años más en los libros impresos en el taller. En el Consejo de Castilla, la obra pasó a los censores, que la aprobaron; posteriormente, el escribano, Juan Gallo de Andrada, rubricó página por página y el secretario Juan de Amézqueta despachó el privilegio real con fecha de 26 de septiembre de 1604. Dicho privilegio consistía en la exclusiva para que solo el autor, o la persona a quien se lo cediera, pudiera editarlo durante el tiempo y en el lugar concedidos (en este caso, diez años en el reino de Castilla). Cervantes vendió sus derechos a Francisco de Robles, que contrató la impresión con Juan de la Cuesta.”). Vide http://www.edobne.com/manuscrtcao/la-primera-edicion-del-quijote.

É trabalho demais para debitar a obra a um “front man”

“Nenhum retrato” ... 
Tem retrato, sim (J. de Jáuregui Real Academia Española, Madrid Pintura al óleo Atribuido a Jáuregui, inscrito con el nombre de Cervantes). Vide http://cervantes.tamu.edu/V2/images/index.htm/.

Resultado de imagem para cervantes

“Nenhuma referência no túmulo...”

Mas nem se tem certeza absoluta de qual é o túmulo de Cervantes... Lembremo-nos que a igreja de Trinidad foi construída após o enterro de Cervantes, que estava numa pequena capela, o que resultou em perda do local do ataúde do ilustre autor (26 de enero de 2015 “El equipo forense que desde hace nueve meses busca a Miguel de Cervantes en la iglesia de las Trinitarias de Madrid, donde se cree que fue enterrado, encontró un féretro en mal estado con las iniciales M.C., y ahora analizará si los restos asociados a él se corresponden con los del escritor.”). Vide http://www.eltiempo.com/mundo/europa/tumba-de-miguel-de-cervantes-habria-sido-hallada/15147998 e http://www.sopitas.com/site/436334-encuentran-el-ataud-de-miguel-de-cervantes-saavedra/

E para que referências no túmulo? É obrigatório? Todos os túmulos são assim? Sem exceção? 

"Cide Hamete Benengeli"
Cide é 'transliteração de cid, senhor em árabe (“ya que como el propio don Quijote aclara, significa «señor» en árabe: es una perversión de سيد sīd”). Sabe-se que Cervantes ficou 5 anos prisioneiro em Argel.

“Hamete” é a forma castelhana de um nome próprio indo-europeu de onomástica hispano-muçulmana. Os autores discutem sobre sua equivalência exata em árabe, que pode corresponder a três nomes parecidos e etimologicamente afins. O hispanista egípcio Abd al-Aziz al-Ahwanilo diz equivaler a حمادة  Hamāda; o hispanista Abd al-Rahman Badawi opta por حميد Ḥāmid, enquanto que o também hispanista Mahmud Ali Makki afirma que se trata de أحمد Aḥmad, de uso más corrente que os dois anteriores.

Quanto a Benengeli o assunto complica. O primeiro a dar uma pista foi o arabista José Antonio Conde, que interpretou como castelhanizarão de Ibn al-ayyil, “filho do cervo”, como Cervantes aludia a si próprio. Da mesma opinião estão o cervantista Diego Clemencín e Abd al-Rahman Badawi. O orientalista Leopoldo Eguílaz y Yanguas quis ligar “Benengeli” a “berenjena” (berinjela), una interpretação do próprio Sancho Pança.

Os cervantistas Saadeddine Bencheneb e Charles Marcilly propuseram como etimologia ابن الإنجيل ibn al-Inŷīl, isto é, “filho do Evangelho”, com o qual Cervantes faria um jogo de palavras irônico com o nome do suposto autor de Don Quixote e seu carácter mulçumano e o carácter cristão do autor real, ele mesmo. Para o hispanista Mahmud Ali Makki, essas interpretações anteriores são inconsistentes e, como outros autores, se inclina por supor que o nome é simplesmente una invenção, talvez inspirada no nome de una conhecida família andaluza, os Beni Burungal, ou Berenguel (بني برنجل, apelido de origem catalã —Berenguer—, arabizado e romanceado em Berenguel).

Veja, por curioso, ¿Quién fue Cide Hamete Benengeli? em:

 http://elpais.com/diario/2005/12/31/babelia/1135990219_850215.html  

E o que sabemos sobre Thomas Shelton? Não sabemos com certeza absolutamente nada... Thomas Shelton não existiu...
Segundo o Oxford Dictionary of National Biography, (edited by H. C. G. Matthew and Brian Harrison Kelly, edited by H. C. G. Matthew and Brian Harrison, Oxford: OUP, 2004. Online ed., edited by Lawrence Goldman, January 2008. http://www.oxforddnb.com/view/article/25318), Shelton era um católico de Dublin, provavelmente educado na Espanha, onde um Thomas Shelton, Dublinense estava listado na universidade de Salamanca (He seems to have been employed in carrying letters to persons in England from Lord Deputy Fitzwilliam at Dublin Castle.  Kelly, L. G.. “Shelton, Thomas (fl. 1598–1629) However, evidence emerged that he was hostile to the English crown: a letter was intercepted in which he offered his services to Florence MacCarthy, who was seeking to arrange a military intervention by the king of Spain. In 1600 a spy reported that Shelton and one Richard Nugent were at the headquarters of the Irish rebel Tyrone).” (L. G. Kelly in Oxford Dictionary of National Biography, edited by H. C. G. Matthew and Brian Harrison. Oxford: OUP, 2004. Online ed., edited by Lawrence Goldman, 2008, http://www.oxforddnb.com/view/article/25318 . Thomas Shelton, Translator of Don Quixote Edwin B. Knowles. Studies in the Renaissance, Vol. 5, (1958), pp. 160-175 Published by: The University of Chicago Press on behalf of the Renaissance Society of America Article DOI: 10.2307/2856982.).

Também não sabemos nada sobre Francis Carr, já que “there are 18 professionals named Francis Carr, who use LinkedIn to exchange information”, dois políticos americanos (District of Maine & from Ohio), além de pessoa diversa no Facebook, todos com o mesmíssimo nome. Olha aí a incerteza instalada!  Quem escreve sob o comuníssimo nome de Francis Carr? Será um grego, alguém do estado islâmico? Ou um ET? Será que ele guarda recibos de pagamentos de direitos autorais? E do imposto de renda, guarda? Daqui há 400, nem sobre as figuras mais proeminentes teremos documentação sólida em papel. Principalmente porque estamos confiando demais em meios eletrônicos, que se perdem, danificam e ficam obsoletos rapidissimamente, pior que o meio físico. Tudo que é sólido desmancha no ar...
“Segundo ele as expressões encontradas em Dom Quixote listadas abaixo estão também presentes em obras de Bacon e de Shakespeare:”
Perdão, mas as expressões elencadas como típicas inglesas são comuns a todos os países europeus. Minha avó materna – brasileira e baiana - usava muitas delas, sem ter qualquer intimidade com Shakespeare. É bem verdade que pode tê-las ouvido de quem fosse versado na obra shakespeariana. Talvez. O interior da Bahia e o interior do Estado do Rio no final do século 19 e início do século 20 eram bem mais cultos e civilizados que hoje, certo? Errado. É verdade que minha bisavó era diretora de escola do interior. O máximo que ela atingiu na carreira foi um subúrbio de Niterói. Pode ser que ela tenha sido a “fonte” da sabedoria shakespeariana da vovó. Eu duvido, mas pode ser. Embora que, para as moças da minha família, naquela época, a França era o máximo em termos literários, nunca a Inglaterra, segundo lembro do que me contaram em criança.

Obrigada por trazer um assunto tão instigante.

Um abraço,

Cláudia Werneck."

Nenhum comentário: