terça-feira, 29 de abril de 2014

Mitômanos

ARACATACA

            O velho Margarido dizia-se amigo de Gabriel García Márquez.

            - Conheci o Gabriel em Nova York, em 1962. Encontrava-me com ele e sua mulher, a querida Mercedes, nos bares do Central Parque, onde bebíamos uísque com soda e conversávamos sobre política e literatura. Naqueles tempos, Gabito, era assim que o chamávamos, estava muito entusiasmado com a carreira do romance “Ninguém Escreve ao Coronel” e certa vez me mostrou os originais da primeira parte dos “Cem Anos de Solidão”.

            Sabíamos que essa intimidade com o escritor não era verdadeira porque Maria Dinah, a falecida mulher do Margarido, garantira numa festa que o marido nunca tinha viajado para fora do Brasil. Um dia alguém decidiu conferir o que ele dizia e leu uma volumosa biografia do autor colombiano. Pôde confirmar que de fato García Márquez era tratado pelos amigos como Gabito, publicou “Ninguém Escreve ao Coronel” em 1961 e morava em Nova York em 1962. Sua mulher se chama Mercedes, tudo conferia. 

            - Não é pelas circunstâncias que os mitômanos se deixam apanhar. 

            - Revestem a fantasia com cuidado total, inviabilizando possíveis contradições e desmentidos. 

            Um dia Margarido limpou as gavetas e foi embora, deixando sobre a mesa uma carta em que informava que iria mudar-se para Aracataca, na Colômbia, a cidade natal de Garcia Márquez. Não chegamos a saber do seu real destino, mas ele desapareceu para sempre.

Um comentário:

cirandeira disse...

Você está cada vez mais afiado em suas escrituras, PARABÉNS, Remo, PARABÉNS!!!

Abraços